25 de out. de 2016

Talvez

Hoje eu não quero usar mascaras, nem falar em códigos - ou indiretas - nem me esconder de nenhuma forma. Na verdade, eu nem queria estar aqui. Não queria estar nesse blog. Não queria rever esses sentimentos. E definitivamente não queria rever você. Mas também queria te ver sim, e muito.
Eu sei que parece confuso, e é bem confuso mesmo, mas eu desisti de fazer sentido de mim mesmo a um certo tempo já, e isso as vezes me faz bem. Faz eu pensar que posso fugir de muita coisa. Que é normal viver assim, em sentido oposto e posto ao mesmo tempo. Faz, como agora, eu fugir do tema pro texto parecer mais pessoal, mais meu, e me faz pensar que eu posso ter algum controle sobre isso tudo. O que é uma grande mentira.
Esse texto, como tantos outros, jamais poderia ser meu. Esse texto é seu. E eu nos odeio por isso. Me odeio por tantos anos depois ainda não conseguir te esquecer e te odeio por tudo o que você fez, especialmente as coisas boas. As coisas que deixam tão difícil a tarefa de te esquecer.
Esse texto é seu, assim como também foi a minha manhã e a minha noite. É, eu sonhei com você. Sonhei com as coisas antigas. Com a risada da tua mãe. Com o teu cheiro voltando pra casa. Com um reencontro onírico que, acordado, eu teria disfarçado e fugido no momento que ele começasse. Sonhei com o abraço apertado que eu quis te dar quando voltei de viagem e com tudo o que teria sido depois disso.
E como de costume, ao acordar, muitas outras coincidências - ou nem tanto - me levaram a você. Musicas, memorias, lembretes do passado vindos da internet. Um mundo todo de sentimentos que não existe mais. Um mundo que eu preciso que não exista mais porque, se houver ao menos uma possibilidade dele existir, os últimos anos da minha vida foram o maior erro e desperdício que se pode conceber. Um universo inteiro de coisas que eu realmente queria que fossem verdade mas que eu me esforço para que não sejam. Que eu preciso, dentro da minha pequeneza, que não sejam.
E talvez a pior parte seja exatamente essa: a parte em que luto sozinho contra tudo isso porque, realmente, tudo isso só existe, ou só faz diferença, dentro da minha cabeça. E isso seria extremamente bobo de minha parte certo? Ficar lembrando algo que não existe mais e temendo que exista enquanto claramente, você praticou o tal desapego. E não, isso não é uma critica. Aposto que esse desapego deve ser muito bom e espero (embora, já que estamos sendo honestos e diretos, não com uma "esperança absoluta") que você tenha mesmo desapegado e que  não tenha manhãs como essa que estou tendo hoje. Gostaria de saber se isso é verdade. Se eu te perguntasse, você seria honesta? E se você fosse, será que eu poderia lidar com isso? Faria alguma diferença?
Talvez fizesse.
Talvez fizesse toda a diferença do mundo. Ou nenhuma.
Mas não fará. Não fará porque eu não vou te perguntar essas coisas. Não fará porque você não irá ler esse texto. Nem saber de minhas angustias. Você talvez faça como eu e as vezes observe de longe a minha vida. Talvez curta uma foto, ou um comentário. Talvez pense que eu estou feliz com a minha vida - o que não seria uma mentira - e talvez nada disso e sequer se lembre de mim. E talvez seja melhor assim. Um "talvez" que guarde a verdade, seja ela dura ou doce. Um "talvez" que não mate a esperança que não devia existir. Um "talvez" que me permita, ainda que apenas com os olhos bem fechados, sonhar com uma outra vida onde o que hoje é bom pudesse "talvez" ser incrível.
E P.S. Mesmo não sendo mais necessário ou desejado, eu te amo.

10 de abr. de 2014

Mih.


Mih – ele pensou. – Ele sempre soubera o seu nome, ainda que muitas vezes a escrevesse por metáforas mais rebuscadas. Mih. Aquele trecho de nome. Uma interjeição capaz de despertas tantos sentimentos. Pedaço carinhosamente retirado de Camila. Pedaço claro, porque Camila era um universo. Um sem numero de contradições e poesia. Uma complexidade indescritível para as melhores palavras. Ele sabia que Camila era demais. Grande demais, séria demais. Mih. Um pequeno fonema. Algo que seus parcos vocábulos tivessem mais chance de descrever. Mih. Ele preferia assim. Talvez ela também.

Ele fechou os olhos e a visualizou mais uma vez. Uma criatura pequena, de cabelos negros e pele alva. Imaginou as lentes, as roupas, o all star que, quem sabe ela gostasse de usar. Sua mente chegou mais perto. Lembrou de um cheiro perdido no tempo. De palavras que ela poderia dizer. Do som de uma voz. Pensou se ela seria real. Pensou se ela ainda seria real. E por fim, pensou se algum dia ela foi real.

E quanto mais pensava nela, mais difícil era se concentrar em sua imagem. Havia algo de diferente nela. Algo que conferia a ela uma particularidade única, acima do que ele podia imaginar. Ela era mais viva que seus conceitos. Mais viva que suas idéias. E, por ser mais do que era capaz de imaginar, logo, até mesmo as imagens que construíra dela escapavam de seus olhos e não havia nada que ele pudesse fazer.

Ele pensou em procura-la. Em tê-la. Em escrevê-la. Como se o fato de colocar aquela existência em palavras, como se descreve-la fosse, de alguma forma, prende-la aquelas palavras. Mas era inútil. Ela tinha suas próprias palavras. Sua própria vontade. Ela fugiria dele. Sempre fugia. As vezes ficava meses sem o procurar. As vezes era sua própria respiração. As vezes o fazia brigar consigo mesmo.

Ainda assim, saber disso não mudava nada. Ele achou, em uma das muitas vezes que pensara sobre o assunto, que em outra vida eles seriam como planetas a dançar envoltos em suas orbitas, entrelaçados na vastidão do espaço, condenados a nunca colidir. Era triste, mas de alguma forma gostava daquela metáfora. Gostava também da idéia de um dia colidirem de fato. Pensou na poesia de tudo aquilo. Sabia que ela gostava de poesia. Talvez escrevesse aquilo para ela um dia. Talvez numa tarde preguiçosa. Talvez declamasse em um jantar romântico. Talvez mostrasse o guardanapo rabiscado, prova do primeiro esboço, guardado com carinho entre as paginas de um livro sobre solidão e lhe dissesse o quanto aquele pequeno e frágil pedaço de papel tinha sido importante para ele tantos anos atrás.

E enquanto pensava em todas as coisas que queria fazer se ela ficasse, mais uma vez, ela decidiu fugir. Partir dançando com as folhas de um vendaval. Ter aquela existência leve que ela tanto clamava gostar. Partir. Ir. Como em um sonho, ambos sabiam que eventualmente o desfecho se apresentaria em forma de adeus. Mas ambos também sabiam que ele não poderia simplesmente deixa-la ir. Ou pelo menos ele sabia. Sabia que ainda não aprendera a ama-la livre. Sabia que era um erro tentar segura-la, mas sentia, e isso talvez fosse a pior coisa, que não poderia não lutar.

E então, como tantas outras vezes no passado, ele se sentou em frente à maquina de escrever e a alimentou com uma folha de papel. O sentimento era familiar. Os sons ecoavam em sua mente como os antigos risos da infância. Uma breve censura passou em seus pensamentos... Ele tinha prometido a si mesmo não mais fazer esse tipo de coisa. Ainda assim ele estava ali, na frente da máquina, inexorável, como o movimento da vida que segue independente das condições daquele que vive. Talvez precisasse escrever, como precisava respirar. Talvez só fosse cabeça dura demais para parar. Ou só precisasse dela. Mas ela fugiria. Fugiria com toda a vida, todas as palavras, toda a coleção de defeitos que se encaixavam tão bem. Ela fugiria com aquela adorável cegueira que a impedia de ver tudo que existia de bom, em si, nele, num –possível? – ficar.

Mih, ele escreveu enquanto ela partia. Mih... E pensou que talvez devesse terminar a frase ali mesmo. Com reticencias. Talvez...

19 de jan. de 2014

Nossa Caloi 10 Branca.

Faz tempo. Deuses, como faz tempo... E ao pensar isso ele se perdeu em lembranças felizes. Ele pensou na sua Caloi 10 branca com rodinhas pretas dos dois lados. Ela era a coisa mais linda que ele já vira na vida e tudo o que lhe custara foi uma promessa de nunca mais chupar chupeta. E se lembrou de seu pai. Se lembrou de como era fácil viver com ele naquela época. Se lembrou de parques e estacionamentos. Do vento batendo no seu rosto e lhe dando aquela sensação de que ele podia tudo. De que ele era legal, destemido, invencível. De como com aquela bicicleta nem mesmo os carros, nem os aviões, poderiam lhe alcançar. Se lembrou de como cada curva parecia mais radical que a anterior. E de como era feliz. Ele, a Caloi 10 branca e seu pai.

A minha direita tem um homem com alguns dentes quebrados.

Ele não queria que nada mudasse. Jura que não. Mas então algum menino apareceu com outra bicicleta. Com uma rodinha só. E ele parecia tão... “mais legal”. E mesmo feliz ele quis aquilo também. Seu pai achou que ele estava crescendo. Seu pai tirou a rodinha do lado esquerdo com satisfação e uma chave que ele não sabia o nome. E ele montou na sua Caloi 10 branca e pedalou. E sim, ele ainda se lembra do primeiro susto. Da primeira balançada mais forte. Da primeira vez que colocou o pé no chão com medo de cair. E ele se lembra de como, a partir disso, só queria fazer curvas para a direita. O medo é uma coisa poderosa em uma criança. E ele preferia andar em círculos buscando a antiga sensação de segurança do que se arriscar a ter de por o pé no chão de novo. Meninos legais não põe o pé no chão.

Atrás de mim tem um rapaz. Ele não tem um dedo.

E então, depois de um tempo que para sua mente de criança foi extremamente pequeno, seu pai sugeriu tirar a rodinha da direita. Era assim que os adultos andavam. E pelos Deuses, como ele queria ser adulto. Ele queria parecer grande. Bem maior do que realmente era. E queria ser corajoso. E queria orgulhar seu pai. E foi assim que um garoto meio gordo e com um péssimo corte de cabelo marchou até o pai com uma coragem que ele não tinha e exigiu que o homem tirasse a ultima rodinha. E foi assim que ele cai pela primeira vez. Numa tarde de sol, no pátio de um museu, na frente de todo mundo. E aquilo doeu. Doeu no joelho. Doeu na mão. Doeu no orgulho. E ele percebi que a Caloi 10 branca não lhe fazia invencível. E ele a culpou. Ele a culpou por algo que ela nunca prometeu. Ele a culpou pelos meus excessos e falhas. Ele a culpou e disse que tudo que estava errado era culpa dela. Se ela fosse de 12 marchas. Se ela fosse azul. Se ela... E ele se esqueceu de que ela também podia lhe culpar. E de que lhe culpando, ela podia estar certa. E de que podia estar mais certa do que ele. Mas isso não é coisa que um menino de vinte e tantos, quero dizer, dez anos, pense. Algo aquele dia se partiu entre ele e a Caloi 10 branca. Eles não eram mais incríveis conquistadores de velocidades absurdas. Eles eram apenas um menino meio gordo e sua bicicleta. E após um curativo o menino meio gordo levantou a bicicleta e tentou de novo. E ele se lembra de seu pai lhe segurando. Torcendo por ele. Mesmo que ele fosse só um menino com uma Caloi 10 branca.

Tem um velho a minha esquerda. E seus joelhos parecem uma colcha de retalhos. Cicatrizes que marcam a pele.

Depois de muito tempo ele aprendi a andar direito de bicicleta. E alguns dos sentimentos que ele teve muito antes voltaram, ainda que não da mesma forma. A intensidade mudara. A compreensão. Ele era mais velho agora. Mais ainda fazia curvas radicais. Ele se lembra do dia em que deu sua Caloi 10 branca para uma criança carente. Meu pai estava lá. Ele lhe dizia que eu já estava grande demais para aquela bicicleta e que outra pessoa poderia aproveita-la melhor. Ele lhe dizia que comprariam outra, o que embora tenha demorado um tempo, foi verdade. Ele lhe dizia muitas coisas que ele não queria ouvir. Era a Caloi 10 branca dele. E ele se lembrou de entender que as vezes a gente tem de deixar ir. Que a gente tem de entender que tudo tem seu tempo. E ele se lembra de outras bicicletas. De outras vezes que foi radical. De outros, ah, de tantos outros tombos. E se lembra de se revoltar. De aprender a andar de patins. De tentar – e falhar miseravelmente – aprender a andar de skate. Paixões temporárias. Cada uma com seus momentos radicais. Cada uma com suas quedas. E se lembra sempre da Caloi 10 branca.



Olhos para as figuras a minha volta. O homem dos dentes quebrados caiu de uma Caloi 10 branca quebrou os dentes no estacionamento de uma firma grande perto da sua casa quando era criança. Ele pensou que os dentes nunca mais iam voltar ao normal. O rapaz perdeu o dedo, ou pelo menos assim lhe pareceu, quando estava aprendendo a fazer curvas e acabou enfiando a sua Caloi 10 branca na parede de pedras de um prédio na praia onde estava com a sua família. Sua avó fez os curativos e os dedos ficaram. O velho com as cicatrizes. Ah, essas vieram de várias quedas. Ele se lembra das que doeram mais. Ele se lembra de umas duas que fizeram ele querer continuar deitado no chão. Mas ele se levantou. E eles estão todos aqui. Nós. Eu. E fazem anos que eu não ando de bicicleta. Mas hoje eu vi uma Calói 10 branca na rua. Não tão bonita quanto as de antigamente. Não tão bonita quanto eu lembro.



Seu pé direito encontra o pedal. O vento bate em meu rosto. Nós somos invencíveis em nossa Caloi 10 branca. Nós somos infinitos. Faz tempo. Deuses, como faz tempo.

3 de out. de 2013

Antes que seja tarde





Antes que seja tarde,
me dá mais um beijo?
me deixa sentir teu hálito quente
me protege do mundo frio

Antes que fique cinza
Não me impeça de pular
Não me peça cuidado
Não me diga que o fogo arde

E antes de apagar a luz
me conta mais uma história
me faz mais um cafuné
me dá motivo pra sonhar.

Antes que acorde
deita do meu lado
rouba a coberta
sorri faceira sobre meu peito

Antes que vire amor
mostra meus defeitos
faz rir deles.
Faz vontade de ficar.

Antes que fique triste
diz que é pra sempre
sempre e pra sempre
e faz acreditar


Antes que fique tarde
Me pergunta outra vez
O quanto te amo.
Respondo: apenas o suficiente...

.
.
.

 ... Pra durar toda a eternidade.

30 de set. de 2013

As vezes...

Dói, eu sei. Dói pra caralho, mas não é essa a intenção?
Ninguém disse que seria fácil. Viver sabe. Nunca foi. E mesmo eu, que me julgava invencível, já quis, por mais de uma vez, desistir.
É, eu já quis jogar a toalha, esquecer essa porra de esperança, esquecer você, esquecer o mundo. Ainda quero, as vezes. E sei que ainda vou querer. Mas seria mais fácil não? Muito mais fácil. Mas ainda assim, te ver “chorando” acaba comigo. Te ver querendo desistir. Porque eu sei que você é melhor que isso. Porque eu sei que você merece mais. Porque em algum lugar no meio dos meus meio-caminhos, eu descobri que não adianta desistir. Não existe desistir. Querendo ou não, a vida te levanta. Ela te leva de volta e você faz de novo as coisas que jurou nunca fazer. Ela te FODE de novo e de novo. E depois mais uma vez. Até que em um determinado momento você não aguenta mais. Em um determinado momento você muda. Um pouco. Você começa a ver as coisas de um modo diferente. Você vê que a gente tenta por ordem em tudo. Que a gente tenta entender tudo. Que a gente é arrogante pra caralho. Que a gente acha que o primeiro posto de gasolina na estrada já é o destino final. E, se você realmente entender, você também descobre que a estrada não tem um final. Ou pelo menos não um que a gente possa ver. E, por mais estranho que pareça, isso te dá uma certeza. Uma certeza estranha. Um tudo que é nada e um nada que é infinito em suas possibilidades. Uma certeza que te faz entender que tudo é transitório e eterno. Que aquilo que você tenta segurar vai eventualmente mudar, sumir, fugir. Que o inesperado está escondido em cada esquina, basta esperar.Que não existe justiça. Lógica. Que o que você sente, se for verdadeiro, vai estar sempre com você, mesmo quando você parar de sentir. Que o que passou é eterno. Vai sempre ter existido. Vai sempre existir em você. E, por fim, que é a esperança, e não o ar ou a comida ou qualquer coisa tão mundana, que te mantem viva, e que mesmo tentando fugir dela, ela esta em você, em sua essência.
A vida partiu meu coração. Eu parti meu coração com ela. E o seu. E você o meu. E dói, eu sei. Dói pra caralho. E não era essa a intenção. Mas é eterno. E o amor também é.

Não desista. Nunca.

13 de set. de 2013

Pizarro

Fui um pássaro.
Fui pedra.
Fui incêndio florestal.
Numa era de gelo.
E em cada dia fui uma coisa diferente.
Fui eu.
Fui incoerente. Tive esperança.
Corri atrás do passado.
Perdi.
Me perdi.
Fui sangue correndo.
Fui ficar em pé nos cacos.
Fui procurar um chão já desmoronado.
Fui o grito.
E a rouquidão que e seguiu.
Fui o texto não escrito.
E agora não sou nem começo nem fim.
E não sou meio.
Fui buscar minha casa.
Fui chorar no escuro.
Fui buscar abrigo.
Fui e voltei de mãos vazias.
Fui flertar com a saída fácil.
Quase não voltei.
Fui me ajoelhar.
Fui pedir aos Deuses.
Fui medroso. Egoísta. Carente.
Fui?
Fui comemorar pequenas vitórias.
Fui procurar meu caminho.
Fui procurar um caminho.
Fui.
E talvez por ter ido
Tudo o que eu quero é voltar.

25 de ago. de 2013

E o diabo que nunca veio...

E eu que jurei que não ia fazer mais isso notei que a minha jura, assim como qualquer decisão que exija muito esforço, caiu por terra. Ainda assim se você me assombrasse, se a gente pudesse voltar, se eu não fosse tão estupido, egoísta e imaturo, eu juraria o mundo. Eu cumpriria o mundo.
E eu que me esforcei tanto, eu que me torturei pelos meus pecados, eu que achei que um dia tudo isso ficaria para tras.. Hoje eu estou aos pedaços. De novo. E nem foi preciso muita coisa, só uma semelhança, só uma musica, só uma foto... só a lembrança do meu fantasma.
E em cada estilhaço um reflexo, e em cada reflexo um erro.
E eu que pensava que tinha mudado. Cada erro refeito, dessa vez com uma carga extra de culpa. Agora eu sei. Eu sei onde erro. Mas por que não errar? Os últimos erros já me tiraram tudo que me importava. E mudar não fez as coisas voltarem ao que eram, então, pra que? Pra que mudar? Pra que fazer o certo?
E se eu tivesse ficado em casa hoje. Ontem. Sempre. Se eu não tivesse atravessado aquela porta. Se eu nunca tivesse visto. Se eu não soubesse...
E eu que para consertar, ou esquecer, venderia minha alma, fiquei a noite inteira esperando o diabo que nunca veio. Mas amanha isso vai passar. Sempre passa.
E eu que tentei fugir do passado vou conseguir escapar dele, como todo dia, até o próximo fantasma. 

15 de ago. de 2013

Uns dias

Que se foda!
As palavras saiam fracas, estranhas. A garganta estava seca. Falta de uso. Os dedos também estavam mais duros. As frases saiam assim, as golfadas. Um jorro vindo da alma. Da lama. Da vontade de atirar em todas as direções até que não existisse nada além dele. Ele não queria ouvir as justificativas. Não queria ouvir que estava errado. Não estava. Não queria estar. Não queria que ninguém lhe roubasse o direito de estar puto. Não que fosse se vingar, não acreditava nisso, mas pelo menos podia estar puto. Podia beber. Encher a cara até tudo parecer melhor. Já fizera isso antes. Queria o silencio. Queria que pelo menos dessa vez as coisas fossem do seu jeito.
Estava cansado.
Cansado de tentar ser superior. De ser bom. De correr atrás. Estava cansado de se refazer. De pegar os estilhaços de si e tentar fazer um novo chão. Um novo começo onde se apoiar. E sim, isso era mais difícil do que parecia. E talvez, e esse pensamento realmente lhe assustava, só talvez, já não tivesse jeito. Talvez esse fosse o preço dos pecados que cometera, e de alguns que ainda cometia. Talvez simplesmente já não valesse mais a pena. E enquanto pensava nisso ele sentia o caos abaixo dos seus pés. Ele sentia a vida. Não necessariamente algo bom, mas uma força. Uma força neutra. Uma força que exigia vazão. Que aproveitava cada brecha de seu suposto controle para escapar. E a vida também saia assim, as golfadas. Não! Mais forte! Aos jorros! E jorrava violenta. Aquela força era cruel. Era mesquinha. Era indomável. Era brutal. E ela, ele agora sabia, quebraria novamente seu chão. Estilhaçaria mais tantas vezes seu coração.
Os gritos de sua garganta saiam melhores agora. Mas ainda assim, ainda que fossem perfeitos, ainda que acordassem não só a sua casa, ainda que acordassem a porra da vizinhança inteira, do mundo inteiro. Ainda assim não seriam o bastante. E de novo talvez - esse maldito talvez - nunca fossem o suficiente. A garganta secaria de novo, é fato. Ou pelo grito ou pela ausência. Os dedos, que agora escreviam freneticamente nos papéis e nas paredes e, por fim, no próprio corpo, eles também voltariam a ser duros e lerdos como antes. As decepções continuariam. Os desamores. As importâncias não correspondidas. E eu juro que queria terminar isso com uma frase mais alegre, ou uma esperança no futuro, acho realmente que ele merecia, por mais errado que fosse, mas, eu também ando cansado. Espero que ele me desculpe por isso.


30 de jul. de 2013

Fuga.

Troquei a foto. Troquei a roupa de cama. Troquei os sorrisos.
Fugi sim. Por anos. Por léguas. Por oceanos.
E voltei.
E notei que já não era do sorriso que eu tinha medo.
Mas da sombra de um tempo ido.
Da saudade que faz tudo mais bonito.
Tinha medo de mim e do que o meu querer podia roubar de mim.
Tenho medo dos fantasmas enterrados.
Medo das palavras ditas. Mais medo ainda das não ditas.
Medo do pretério do futuro. Medo do mais que perfeito.
Não, nunca fui corajoso.
Meus arrombos de romantismo analisados não são muito.
Talvez não cheguem nem perto do suficiente.
Mas eu sou assim, silenciosamente alto.
Não grito. Ou pelo menos não mais.
Também não procuro culpados. Não os quero.
Que todos se absolvam.
Ou quase todos. Não sou tão bonzinho assim. E nem tento ser, confesso. Não de verdade pelo menos.
O fato permanece. A fuga é mais fácil.
Um copo de suco de laranja e uma torrada e pé na estrada.
Mas, no fundo, ainda sou eu. E ainda tenho que voltar.
Mudanças e pretextos.
A verdade é esquiva e inconstante. Eu também sou. Confuso. Contraditório. Paradoxal.
E errado. Dizem.
Mas eu tento. Tento voltar. Tento enfrentar.
Tento escrever de novo. Mas escrever... é se abrir demais... entende?
E mesmo sabendo que o texto de hoje pode se transformar no fantasma de amanha.
Eu tento. Tento porque é uma parte de mim.
Tento porque alguns demônios só são exorcizados quando ganham nomes.
Enfim, eu tento. E dessa vez, de verdade.

Mas se eu pudesse fugir... A se eu pudesse fugir mesmo... Eu fugia.

1 de mai. de 2010

Antes de dormir

E enquanto eu velava seu sono todos os caminhos errados pareciam certos.

E os fantasmas do meu armário passavam, um por um, cada um com uma memória, cada um com uma dor, refazendo seus passos, seus gestos, e desaparecendo no batente da porta. E de cada poro vazava uma lembrança. E de cada poro vazava uma gota de sangue. As promessas se desfaziam no ar e os anos corriam velozes.

E enquanto eu sentia os movimentos sôfregos do seu corpo sob o meu e você mordia suavemente seu lábio reprimindo os gemidos de cada nova descoberta as velhas cicatrizes sumiam aos poucos. As antigas ilusões estilhaçadas voltavam a tomar forma. A cada sorriso, a cada beijo, sentimentos mortos tornavam a florescer. A cada suspiro a nevoa cinza se dissipava. A cada olhar... Ah, a cada olhar... Com todo o peso do céu as muralhas caiam e as defesas ruíam no mais profundo silencio.

E enquanto eu recebia o calor do seu hálito e aninhava seu corpo nu no meu peito um vazio avassalador me tomava, como o medo de pular de um precipício, como ser jogado de um avião em movimento sem direito a para quedas. Qualquer medo ou experiência perdiam a validade enquanto seus sussurros doces me esvaziavam, me purificavam. Não havia mais o que esconder. Não há. Olho mais uma vez para o penhasco. O maior que já vi. Sorrio uma ultima vez para meus fantasmas e, num momento de coragem monumental me atiro, entrego, confio e espero que teus ventos façam minhas asas enferrujadas voarem pela primeira vez.

E enquanto eu percebo que não sou mais meu, apago a luz e beijo sua testa. Não tem mais jeito. Então sussurro em teu ouvido e puxo um pedaço do cobertor.



Boa noite meu amor...

27 de abr. de 2010

E a (sua) vida continua...

E então veio o primeiro grito. E o segundo. E o terceiro. A garganta rasgava a cada esforço. Gritou até que o sangue começasse a fluir junto com a voz. Pedi que com o sangue saísse a alma. Pedi que os meus cortes fossem tão profundos quanto os seus. O quarto tremeu. Eu tremi. A sanidade fora embora. Trocara de lugar com o amor. Trocara de lugar com a tinta. Com as letras. Com o sangue. Dor. Dor de um corpo que se batia. Osso. Pele. Carne. E se ele pulasse? E se se jogasse da escada? Do prédio? E se caísse do céu? Alguém sentiria falta? Você sentiria falta? Faria alguma diferença na sua rotina? No seu café com leite? Na sua cama com sabe-se lá quem? A loucura é individual. A morte também. Meu nariz de palhaço está no chão. Minha adaga também. Sua porta apodrece fechada. Minha porta morre aberta. Não importa se não faz sentido. Não importa se dói. Só me importa se é real. Será que isso ainda me importa?

12 de abr. de 2010

Pagina 26

Eu sei que você nunca quis que eu me sentisse assim. Sei que você nunca quis meu mal... mas, de que adianta isso se eu mesmo o quis? Eu quis construir essa fantasia de nós dois. Eu quis o sonho, e enquanto eu sonhava fantasias, você cuspia realidade. Não me entenda mal, não digo que estava errada, mas talvez certa demais. O fato é que eu construi o nosso castelo para mim mesmo e agora, quando a noite cai e as coisas mais simples me lembram você, o sonho de nós dois apodrece sem morrer, escorrega entre meus dedos e eu me reviro na cama com cada parte do meu corpo gritando o seu nome.

Merda. Como se pode sentir falta do que nunca se teve? Seria esperança? A maldita sombra do “e se” espreitando minha solidão?Mas que remédio, meu Deus, que remédio para essa realidade azeda? Que cura espero eu que guiei tuas mãos indispostas até o centro do peito e as forcei a arrancar meu coração? Que doce loucura poria fim a esse tormento? Qual veneno terrível irei recusar em nome dessa melancolia inventada?

Ah, se pelo menos você não existisse. Se pelo menos fosse, como todo o resto, uma fantasia maluca, talvez a dor incomodasse menos. Mas não, você teima em existir, em ser encantadoramente real, verdadeira, diferente do nós que existe em mim, diferente desta faca de dois gumes que pelas minhas mãos só fere a mim mesmo de uma forma inegavelmente real.

Quão absurda ilusão é essa de eternamente perder uma guerra que luto sozinho... Que inimigo é esse senão o meu próprio amor? Sim, digo novamente enquanto tomas uma taça de meu sangue, sim, eu te amo, e talvez esse amor nunca vença a sua lógica ou seja mais real do que esse nós que criei apenas para mim. Talvez sempre me falte realidade, talvez sempre te falte fantasia. Talvez... talvez eu não saiba mais o que estou dizendo, talvez nunca tenha sabido, mas duvido que você possa dizer honestamente que estou errado. Duvido que não concorde e, principalmente, duvido que em você não exista pelo menos o fantasma de um nós.

O pior é saber que sentir isso não muda nada e que mesmo agora, depois de tudo escrito pela décima centésima vez esse nós maldito não vai embora. Ele nunca vai. E saber que talvez, só talvez, sou eu que não o deixo ir também não me faz muito bem...
Me disseram certa vez que existem males que são necessários...




Será?

6 de abr. de 2010

as coisas em que acreditamos

Eu me surpreendi quando descobri que ainda acreditava. Talvez eu seja mesmo um perdido na vida, um desorientado, um alguém que depende mais da sorte do que do juízo e que pode ser derrubado por uma pergunta inesperada numa quarta feira a tarde, pode ser que não. Pode ser que eu seja comum, igual a qualquer outro, sem nenhum segredo especial, nenhum super poder. Mas e daí? Quem pode dizer que se conhece plenamente antes de se surpreender quando seu coração se despedaça em um bilhão de farpas e você finalmente percebe que ainda acredita em finais felizes.
Acreditava.
Acredita...

Agradecimentos

Gostaria de agradecer a todos os comentários recebidos, isso é definitivamente surpreendente e não posso negar que gostei demais de recebe-los. Pediria desculpas pela demora nos posts, mas, de alguma forma, seria em vão, afinal eu simplesmente não tenho disciplina pra manter isso aqui atualizado. Enfim... tentarei postar mais, sem promessas ok? Juro que não é de sacanagem, eu sou meio lento pra essas coisas de internet, mas não ignorei ninguém...
Então, obrigado a todos e... hum... a, sei lá ^^ rsrsrsrs
abraços, beijos, apertos e mão e todas essas coisas eleitoreiras (não, não concorro a nada, só a um ataque de bobeira as 5 e meia da manha... ossos do oficio.)

AAaaaa sim, publiquei meu segundo conto... não sei se tá bom, mas tá lá, no papel, super gratificante... obrigado a todos que compareceram, depois ponho uma foto ou coisa assim... e quem sabe em breve mais alguma coisa não sai por ai... quem viver verá ^^

15 de jan. de 2010

Recordar é viver

E como se o Tempo subitamente parasse, a mão não tocou o rosto, e o rosto, ansiando pela mão, esperou, e por uma eternidade de lágrimas aguardou o toque que nunca veio.

E todas as feridas se abriram, vertendo sangue da memória, supurando a vida, esperando tratamento, cura, ou aceitação de marcas que nunca mais vão se fechar.

E as navalhas que enchiam sua boca eram lentamente mastigadas, buscando seu espaço entre os dentes, rasgando a gengiva, o céu da boca, dilacerando a língua, dando gosto metálico ao amargo sangue.

E antes de subir o anjo da morte viu sua agonia e sorriu. Existem certas coisas que nunca morrem. O passado é uma delas.




- Morre! Some! Queima no inferno maldita...

O grito rasga sua garganta. Seus músculos ardem e o cansaço se abate sobre seu corpo. Batalhas que não se pode vencer são desgastantes. O fogo que queimava as cartas agora queimam as letras malditas em sua alma. “O tempo aqui é fluido” ele lembrou...

Queria enterrar o passado, mas enterrava a si mesmo, em uma cova profunda, junto com todos os esqueletos de seu armário. Você não queria realidade? - Diz a voz da consciência. – Agora toma, TOMA no cú.

O sangue parou de vazar do pulso. Os remédios não chegaram a fazer efeito. A bebida esgotou a si mesma antes que chegasse em sua boca, era isso, a penitencia, o purgatório em plena vida...

Sua desgraça era tanta que não conseguiu nem pranteá-la no escuro de sua alma.

28 de dez. de 2009

Mensagem de fim de ano

Eu não sei ainda se aprovo ou não o comportamento das pessoas (como se precisassem de minha aprovação) nessa época do ano. É no mínimo curioso o poder que exerce sobre as mentes das pessoas o natal e o ano novo. Tecnicamente são apenas dias como quaisquer outros, não existe nenhum rompimento, nenhuma renovação. Seu corpo continua como se nada tivesse acontecido, entretanto, mentalmente, as pessoas tendem a esquecer e perdoar, e mostrar o lado mais positivo, e na maioria das vezes, mais falso, na esperança de prolongar uma mentira social que se desgasta durante o resto do ano, como um copo de água que cai velozmente na direção do chão, toda turbulência do ano se desfaz no momento que ele acaba, no momento que o copo se parte espalhando seu conteúdo em pequenas poças de boas recordações.
Bah, meu intento não é mudar a cabeça de ninguém agora, estou divagando demais, o que eu realmente queria era agradecer. Quero agradecer a minha amiga Hannah pelo banner do blog que ficou liiiindo, quero agradecer as pessoas que me serviram de inspiração, quero agradecer a todos os que leram, os que comentaram, pois fizeram mais diferença que eu supus que fariam. Gostaria também de me desculpar, essas ultimas semanas tenho me aplicado em escrever contos para coletâneas e acabei me descuidando um pouco do blog, mas ele não fechou nem nada assim, eu acho... Ah sim, um conto meu vai ser publicado no GRIMOIRE DOS VAMPIROS, quero todo mundo lá hein?!?!
Enfim, boas festas a todos, acreditando ou não nelas, e que seus desejos possam sempre se realizar. Deixo-os com a promessa de mais textos, afinal, as férias não duram pra sempre e dia 11 eu to de volta a SP. Abraços a todos e lembrem-se... nada de juízo hein.... rsrsrsrs

30 de out. de 2009

Redenção


Eu estava ali, no meio daquele maldito temporal, de braços abertos gritando palavras surdas que se perdiam no ar sem serem ouvidas nem por mim mesmo. Gritava palavras, gritava navalhas que dilaceravam minha garganta e deixavam o gosto amargo do sangue na minha boca. Merda.

Ela também estava ali. Estava jogada, largada no meio da rua com sua caneta cheia de vodca. Estava encolhida e tão encharcada como eu, mas seus olhos brilhavam, refletiam, diziam que ainda existia alma dentro daquele corpo estirado no chão. Meus olhos eram opacos.

Como chegamos ali? Não faço idéia. Acho que tudo nos levara até aquele ponto, todas as escolhas que fizemos, tudo o que esquecemos ou fingimos não ver, tudo o que sentimos, tudo o que estragamos, tudo o que não deixamos ser. Aquele momento era claro, cristalino. O vento soprava forte e me deixava de joelhos. Ela continuava deitada, protegida naquela posição fetal, murmurando algo que eu jamais fui capaz de compreender.

Tudo doía naquele momento. O nariz gelado, os braços, os ossos, a respiração. Doíam as manhas de sol, mesmo que imaginadas. Doía a fé e doía a esperança de um futuro possível que nunca chegou a acontecer. Doíam as doses de bebida que prometeram uma vez nos fazer esquecer, doíam todas as noites, todas as madrugadas, que entre palavras fingimos a realidade e construímos o impossível. Doía o impossível, doía o “e se...”.

Eu gritava. Buscava redenção por todo mal que lhe fiz. Eu tinha feito questão de existir, de criar, e agora era minha culpa que ela estivesse ali, eu havia sido egoísta, e estava errado, e estava certo. Eu havia criado a noite. Ela murmurava, gemia sob o peso de suas desaprovações, de seus nãos. Ao seu lado estavam as asas, minhas e delas, que ela fizera questão de arrancar com sua incredulidade e teimosia. Ela me matara um pouco também, assim como eu fizera a ela, e ela, ela criou a chuva.

O frio, o vento, o beco, eram apenas alegorias, fantasiosas interpretações de uma realidade impossível. Talvez a chuva fosse vermelha e o chão fosse branco, talvez me fizesse lembrar do sangue atingindo o piso branco do banheiro no dia em que eu não me cortei. Será que foi ela? Talvez isso só tenha existido nas paginas de um caderno velho, ou de um livro empoeirado, largado no canto da casa de um louco. Talvez, nada fosse real a não ser o meu grito e sua vodca. Talvez isso tudo fosse só um conto de fadas que deu errado, talvez só a dor fosse real.

A luz da rua finalmente queimou, e ali, naquele beco, imergimos juntos na escuridão do tempo.



dane-se a terceira pessoa, dói do mesmo jeito

24 de out. de 2009

Soldadinho...

Seus olhos abriram-se lentamente. Havia algo de diferente no ar, algo que ele nunca antes sentira. Há muito que nada penetrava nas trevas de seu refugio fundo o suficiente para incomodá-lo, mas aquele som, sutil e doce, inundava seus ouvidos como se brotasse de dentro de sua própria alma.

Algo havia mudado, podia sentir, era como se a própria sombra em que se envolvera estivesse clareando, revelando aos poucos, uma silhueta invasora. Imóveis, ele em seu espanto e ela por algum motivo qualquer, ficaram ali, silenciosamente, num tempo que poderia ser apenas um segundo, ou talvez, milhares de séculos.

Quase imperceptivelmente aquele som que o acordara começou a aumentar e agora, era-lhe quase possível reconhecer as notas de um piano fantasma, invisível porem potente o suficiente para reverberar suas notas pelas paredes curvas até a silhueta, que como atendendo a musica que saia dele, movimentava-se agora lentamente.

Seu corpo movia-se gracioso pelo espaço, desenhando cores, ditando sentidos, afastando de si a sombra, revelando um palco até então nunca visto. Ele sentia-se maravilhado e com alguma ajuda de seu fuzil pôs-se de pé. Era necessário chegar mais perto, ver com mais clareza a estranha silhueta que invadia seu refugio e causava tantos distúrbios.

Aproximar-se era trabalhoso, arriscado. Com seu sempre confiável fuzil fazendo as vezes de muleta atravessava vagarosamente as trevas que ainda restavam entre a silhueta e ele. A cada passo um novo som, um novo sentido. A luz o incomodava, e foi tentando escapar dela que acabou por chocar-se com uma cadeira. Não se lembrava de nenhuma cadeira ali, mas por ocasião do choque resolveu sentar-se.

A silhueta dançava, ignorante de sua platéia e o som de sua risada mesclava-se a musica, fazendo da melodia algo ainda mais belo e com isso diminuía ainda mais as sombras a seu redor. Sua roupa, preta, contrastava com sua pele branca e com o vermelho recém descoberto das paredes e limites de seu palco.

Desde que escolhera habitar ali, nunca mais tinha ele visto, a verdadeira cor das paredes, sentindo-se mais cômodo, e quem sabe até protegido, com as sombras ao seu redor, mas como havia sentido antes, algo mudara. Mudou a cor, mudou o jeito, mudou o formato, mudou tudo. O que antes era um espaço vazio e escuro agora era um teatro, com direito a cadeiras para a audiência e palco para os invasores.

E distraído em seus pensamentos, mal percebeu que sua presença fora notada, até que, em meio a uma chuva de pétalas negras, percebeu a silhueta vindo em sua direção. Seu andar era suave e delicado e seu corpo, desenhado contra a luz, era perfeito. Levantou-se a tempo de sentir os braços da silhueta rodearem seu corpo. Ela sorriu, ergueu-se na ponta dos pés e lhe deu um beijo nos lábios. Fechou seus olhos, apenas para quando abrir, encontrar os dela, e confirmar para si próprio que aquele coração não era mais o esconderijo escuro que um dia ele construira, mas que aquele coração, de paredes curvas e vermelhadas agora pertencia a outra pessoa.

Ele fora vencido sem um disparo, sem um tiro, sem uma luta. Ele estava amando.

13 de out. de 2009

O blues é meu...

Dizem que Deus é pai... bom, então eu sou órfão. Ou não, ou pior, meu pai é o blues. Isso, meu pai é o blues. Meu pai é o lamento, minha mãe a dor. E essa família me rasga, me dilacera as carnes, me derrama o sangue desde que nasci. E do meu sangue nasce suas risadas, suas alegrias. Do meu sangue eles se alimentam, e com ele constroem os fios dessa realidade maldita que usam para me cortar.

E talvez eu já tenha nascido miserável, talvez eu já tenha sido derrotado antes do começo do jogo, talvez eu tenha uma alma pequena demais, talvez eu tenha sido abortado... Talvez eu não tenha sido feito pra isso, talvez eu não tenha sido feito pra nada... talvez demais, talvez... eu não fui feito pra nada, eu fui feito errado, errado e vivo, e agora busco piedade, seja dada seja minha própria.
Hoje é mais um dia de tarde cinza. Eu fico em casa, vejo TV, bebo refrigerante. Estrago a lata entre meus dedos. Uma chuva fina cai lá fora. Um temporal aqui dentro. E esse temporal molha tudo, explode a TV, escorre pela mesa, alaga o chão, e não vaza pelo ralo. Ele molha o pão e a faca em cima da pia. Tudo igual. Meus livros se desmancham sob o temporal... minha vontade também. Sento no sofá encharcado, tomo o temporal, sinto cada gota descendo por dentro e por fora, sinto meu corpo envelhecer, sinto que meus mal-tratos começa a aparecer, sinto a pele ressecar. Abro a boca pra gritar, mas mais água entra. Sinto a garganta raspando, dolorida, os olhos inchados. Tudo igual.

O temporal tem gosto de vodka. Vou até a vitrola, lembrança de gente que eu nunca conheci. Dou corda e coloco um disco do B.B. King. O som invade o ambiente, arde nos ouvidos, diminui o ritmo do coração. O som corta, mas deixa a pele intacta. A alma sangra. Pego uma caixa de fósforos. Sim, sou eu, eu que começo o incêndio. Vejo as chamas subindo temporal acima, queimando o teto, destruindo tudo... O vermelho do fogo é bonito mas não esquenta. A pele não sente, a alma não sente. Ilusão.

Quando o fogo termina, tudo está igual, sempre igual... e a tarde continua cinza lá fora.

4 de out. de 2009

Terça Feira

E como dois peregrinos em busca de abrigo meus olhos buscavam os dela. Olhos de encanto e mistério, de feitiço e paixão. Duas lagoas castanhas onde se perdiam meu espírito e meu fôlego. Duas estrelas reluzentes que guardavam as promessas do amanha e do depois. Dois olhos risonhos, brincalhões, ladrões de cores e brilhos. Dois egoístas que pareciam querer toda minha atenção para si... e conseguiam.

Enlacei sua cintura e puxei-a para junto de mim. Senti seu coração acelerar? Senti meu coração acelerar. Senti um pequeno arrepio percorrendo a espinha, não sei se minha ou dela. Seu corpo agora tocava o meu e, talvez no movimento mais doce que já vi, ficou na ponta dos pés para que nossos rostos pudessem se aproximar. Seu hálito era intoxicante e não pude deixar de pensar que ali, respirando o mesmo ar que passava por seus lábios entreabertos, até mesmo o ato de respirar tomava uma dimensão mágica e agora, tudo o que eu era estava ligado aquela menina que correspondia com força ao meu abraço.

Sua mão tocou meu rosto e senti o corpo todo estremecer. Sua pele cor de neve era macia e quente, e seus movimentos estavam acima da minha compreensão. Fechei os olhos por alguns instantes enquanto a realidade a nossa volta se desfazia e seu perfume nos levava a um campo florido, onde sozinhos sussurrei ao seu ouvido o quanto me fazia falta e o quanto eu gostava dela. Sua voz em melodia também confessava saudades enquanto eu diminuía ainda mais o espaço já quase inexistente entre nós, como que querendo fundir aquela existência a minha e completar enfim todas as lacunas próprias de mim mesmo.

Afastei meu rosto a fim de admira-la um pouco mais e enquanto seu cabelo lentamente se desprendia da minha barba por fazer fui irrepreensivelmente atraído por seus lábios e enquanto tirava lentamente a pintura vermelha, tão cuidadosamente feita, ao encostá-los aos meus me peguei imaginando se algum dia a vida seria melhor do que isso, ou se alguma outra terça feira de manha seria novamente tão boa assim.