15 de jan de 2010

Recordar é viver

E como se o Tempo subitamente parasse, a mão não tocou o rosto, e o rosto, ansiando pela mão, esperou, e por uma eternidade de lágrimas aguardou o toque que nunca veio.

E todas as feridas se abriram, vertendo sangue da memória, supurando a vida, esperando tratamento, cura, ou aceitação de marcas que nunca mais vão se fechar.

E as navalhas que enchiam sua boca eram lentamente mastigadas, buscando seu espaço entre os dentes, rasgando a gengiva, o céu da boca, dilacerando a língua, dando gosto metálico ao amargo sangue.

E antes de subir o anjo da morte viu sua agonia e sorriu. Existem certas coisas que nunca morrem. O passado é uma delas.




- Morre! Some! Queima no inferno maldita...

O grito rasga sua garganta. Seus músculos ardem e o cansaço se abate sobre seu corpo. Batalhas que não se pode vencer são desgastantes. O fogo que queimava as cartas agora queimam as letras malditas em sua alma. “O tempo aqui é fluido” ele lembrou...

Queria enterrar o passado, mas enterrava a si mesmo, em uma cova profunda, junto com todos os esqueletos de seu armário. Você não queria realidade? - Diz a voz da consciência. – Agora toma, TOMA no cú.

O sangue parou de vazar do pulso. Os remédios não chegaram a fazer efeito. A bebida esgotou a si mesma antes que chegasse em sua boca, era isso, a penitencia, o purgatório em plena vida...

Sua desgraça era tanta que não conseguiu nem pranteá-la no escuro de sua alma.