15/01/2010

Recordar é viver

E como se o Tempo subitamente parasse, a mão não tocou o rosto, e o rosto, ansiando pela mão, esperou, e por uma eternidade de lágrimas aguardou o toque que nunca veio.

E todas as feridas se abriram, vertendo sangue da memória, supurando a vida, esperando tratamento, cura, ou aceitação de marcas que nunca mais vão se fechar.

E as navalhas que enchiam sua boca eram lentamente mastigadas, buscando seu espaço entre os dentes, rasgando a gengiva, o céu da boca, dilacerando a língua, dando gosto metálico ao amargo sangue.

E antes de subir o anjo da morte viu sua agonia e sorriu. Existem certas coisas que nunca morrem. O passado é uma delas.




- Morre! Some! Queima no inferno maldita...

O grito rasga sua garganta. Seus músculos ardem e o cansaço se abate sobre seu corpo. Batalhas que não se pode vencer são desgastantes. O fogo que queimava as cartas agora queimam as letras malditas em sua alma. “O tempo aqui é fluido” ele lembrou...

Queria enterrar o passado, mas enterrava a si mesmo, em uma cova profunda, junto com todos os esqueletos de seu armário. Você não queria realidade? - Diz a voz da consciência. – Agora toma, TOMA no cú.

O sangue parou de vazar do pulso. Os remédios não chegaram a fazer efeito. A bebida esgotou a si mesma antes que chegasse em sua boca, era isso, a penitencia, o purgatório em plena vida...

Sua desgraça era tanta que não conseguiu nem pranteá-la no escuro de sua alma.

28/12/2009

Mensagem de fim de ano

Eu não sei ainda se aprovo ou não o comportamento das pessoas (como se precisassem de minha aprovação) nessa época do ano. É no mínimo curioso o poder que exerce sobre as mentes das pessoas o natal e o ano novo. Tecnicamente são apenas dias como quaisquer outros, não existe nenhum rompimento, nenhuma renovação. Seu corpo continua como se nada tivesse acontecido, entretanto, mentalmente, as pessoas tendem a esquecer e perdoar, e mostrar o lado mais positivo, e na maioria das vezes, mais falso, na esperança de prolongar uma mentira social que se desgasta durante o resto do ano, como um copo de água que cai velozmente na direção do chão, toda turbulência do ano se desfaz no momento que ele acaba, no momento que o copo se parte espalhando seu conteúdo em pequenas poças de boas recordações.
Bah, meu intento não é mudar a cabeça de ninguém agora, estou divagando demais, o que eu realmente queria era agradecer. Quero agradecer a minha amiga Hannah pelo banner do blog que ficou liiiindo, quero agradecer as pessoas que me serviram de inspiração, quero agradecer a todos os que leram, os que comentaram, pois fizeram mais diferença que eu supus que fariam. Gostaria também de me desculpar, essas ultimas semanas tenho me aplicado em escrever contos para coletâneas e acabei me descuidando um pouco do blog, mas ele não fechou nem nada assim, eu acho... Ah sim, um conto meu vai ser publicado no GRIMOIRE DOS VAMPIROS, quero todo mundo lá hein?!?!
Enfim, boas festas a todos, acreditando ou não nelas, e que seus desejos possam sempre se realizar. Deixo-os com a promessa de mais textos, afinal, as férias não duram pra sempre e dia 11 eu to de volta a SP. Abraços a todos e lembrem-se... nada de juízo hein.... rsrsrsrs

30/10/2009

Redenção


Eu estava ali, no meio daquele maldito temporal, de braços abertos gritando palavras surdas que se perdiam no ar sem serem ouvidas nem por mim mesmo. Gritava palavras, gritava navalhas que dilaceravam minha garganta e deixavam o gosto amargo do sangue na minha boca. Merda.

Ela também estava ali. Estava jogada, largada no meio da rua com sua caneta cheia de vodca. Estava encolhida e tão encharcada como eu, mas seus olhos brilhavam, refletiam, diziam que ainda existia alma dentro daquele corpo estirado no chão. Meus olhos eram opacos.

Como chegamos ali? Não faço idéia. Acho que tudo nos levara até aquele ponto, todas as escolhas que fizemos, tudo o que esquecemos ou fingimos não ver, tudo o que sentimos, tudo o que estragamos, tudo o que não deixamos ser. Aquele momento era claro, cristalino. O vento soprava forte e me deixava de joelhos. Ela continuava deitada, protegida naquela posição fetal, murmurando algo que eu jamais fui capaz de compreender.

Tudo doía naquele momento. O nariz gelado, os braços, os ossos, a respiração. Doíam as manhas de sol, mesmo que imaginadas. Doía a fé e doía a esperança de um futuro possível que nunca chegou a acontecer. Doíam as doses de bebida que prometeram uma vez nos fazer esquecer, doíam todas as noites, todas as madrugadas, que entre palavras fingimos a realidade e construímos o impossível. Doía o impossível, doía o “e se...”.

Eu gritava. Buscava redenção por todo mal que lhe fiz. Eu tinha feito questão de existir, de criar, e agora era minha culpa que ela estivesse ali, eu havia sido egoísta, e estava errado, e estava certo. Eu havia criado a noite. Ela murmurava, gemia sob o peso de suas desaprovações, de seus nãos. Ao seu lado estavam as asas, minhas e delas, que ela fizera questão de arrancar com sua incredulidade e teimosia. Ela me matara um pouco também, assim como eu fizera a ela, e ela, ela criou a chuva.

O frio, o vento, o beco, eram apenas alegorias, fantasiosas interpretações de uma realidade impossível. Talvez a chuva fosse vermelha e o chão fosse branco, talvez me fizesse lembrar do sangue atingindo o piso branco do banheiro no dia em que eu não me cortei. Será que foi ela? Talvez isso só tenha existido nas paginas de um caderno velho, ou de um livro empoeirado, largado no canto da casa de um louco. Talvez, nada fosse real a não ser o meu grito e sua vodca. Talvez isso tudo fosse só um conto de fadas que deu errado, talvez só a dor fosse real.

A luz da rua finalmente queimou, e ali, naquele beco, imergimos juntos na escuridão do tempo.



dane-se a terceira pessoa, dói do mesmo jeito

24/10/2009

Soldadinho...

Seus olhos abriram-se lentamente. Havia algo de diferente no ar, algo que ele nunca antes sentira. Há muito que nada penetrava nas trevas de seu refugio fundo o suficiente para incomodá-lo, mas aquele som, sutil e doce, inundava seus ouvidos como se brotasse de dentro de sua própria alma.

Algo havia mudado, podia sentir, era como se a própria sombra em que se envolvera estivesse clareando, revelando aos poucos, uma silhueta invasora. Imóveis, ele em seu espanto e ela por algum motivo qualquer, ficaram ali, silenciosamente, num tempo que poderia ser apenas um segundo, ou talvez, milhares de séculos.

Quase imperceptivelmente aquele som que o acordara começou a aumentar e agora, era-lhe quase possível reconhecer as notas de um piano fantasma, invisível porem potente o suficiente para reverberar suas notas pelas paredes curvas até a silhueta, que como atendendo a musica que saia dele, movimentava-se agora lentamente.

Seu corpo movia-se gracioso pelo espaço, desenhando cores, ditando sentidos, afastando de si a sombra, revelando um palco até então nunca visto. Ele sentia-se maravilhado e com alguma ajuda de seu fuzil pôs-se de pé. Era necessário chegar mais perto, ver com mais clareza a estranha silhueta que invadia seu refugio e causava tantos distúrbios.

Aproximar-se era trabalhoso, arriscado. Com seu sempre confiável fuzil fazendo as vezes de muleta atravessava vagarosamente as trevas que ainda restavam entre a silhueta e ele. A cada passo um novo som, um novo sentido. A luz o incomodava, e foi tentando escapar dela que acabou por chocar-se com uma cadeira. Não se lembrava de nenhuma cadeira ali, mas por ocasião do choque resolveu sentar-se.

A silhueta dançava, ignorante de sua platéia e o som de sua risada mesclava-se a musica, fazendo da melodia algo ainda mais belo e com isso diminuía ainda mais as sombras a seu redor. Sua roupa, preta, contrastava com sua pele branca e com o vermelho recém descoberto das paredes e limites de seu palco.

Desde que escolhera habitar ali, nunca mais tinha ele visto, a verdadeira cor das paredes, sentindo-se mais cômodo, e quem sabe até protegido, com as sombras ao seu redor, mas como havia sentido antes, algo mudara. Mudou a cor, mudou o jeito, mudou o formato, mudou tudo. O que antes era um espaço vazio e escuro agora era um teatro, com direito a cadeiras para a audiência e palco para os invasores.

E distraído em seus pensamentos, mal percebeu que sua presença fora notada, até que, em meio a uma chuva de pétalas negras, percebeu a silhueta vindo em sua direção. Seu andar era suave e delicado e seu corpo, desenhado contra a luz, era perfeito. Levantou-se a tempo de sentir os braços da silhueta rodearem seu corpo. Ela sorriu, ergueu-se na ponta dos pés e lhe deu um beijo nos lábios. Fechou seus olhos, apenas para quando abrir, encontrar os dela, e confirmar para si próprio que aquele coração não era mais o esconderijo escuro que um dia ele construira, mas que aquele coração, de paredes curvas e vermelhadas agora pertencia a outra pessoa.

Ele fora vencido sem um disparo, sem um tiro, sem uma luta. Ele estava amando.

13/10/2009

O blues é meu...

Dizem que Deus é pai... bom, então eu sou órfão. Ou não, ou pior, meu pai é o blues. Isso, meu pai é o blues. Meu pai é o lamento, minha mãe a dor. E essa família me rasga, me dilacera as carnes, me derrama o sangue desde que nasci. E do meu sangue nasce suas risadas, suas alegrias. Do meu sangue eles se alimentam, e com ele constroem os fios dessa realidade maldita que usam para me cortar.

E talvez eu já tenha nascido miserável, talvez eu já tenha sido derrotado antes do começo do jogo, talvez eu tenha uma alma pequena demais, talvez eu tenha sido abortado... Talvez eu não tenha sido feito pra isso, talvez eu não tenha sido feito pra nada... talvez demais, talvez... eu não fui feito pra nada, eu fui feito errado, errado e vivo, e agora busco piedade, seja dada seja minha própria.
Hoje é mais um dia de tarde cinza. Eu fico em casa, vejo TV, bebo refrigerante. Estrago a lata entre meus dedos. Uma chuva fina cai lá fora. Um temporal aqui dentro. E esse temporal molha tudo, explode a TV, escorre pela mesa, alaga o chão, e não vaza pelo ralo. Ele molha o pão e a faca em cima da pia. Tudo igual. Meus livros se desmancham sob o temporal... minha vontade também. Sento no sofá encharcado, tomo o temporal, sinto cada gota descendo por dentro e por fora, sinto meu corpo envelhecer, sinto que meus mal-tratos começa a aparecer, sinto a pele ressecar. Abro a boca pra gritar, mas mais água entra. Sinto a garganta raspando, dolorida, os olhos inchados. Tudo igual.

O temporal tem gosto de vodka. Vou até a vitrola, lembrança de gente que eu nunca conheci. Dou corda e coloco um disco do B.B. King. O som invade o ambiente, arde nos ouvidos, diminui o ritmo do coração. O som corta, mas deixa a pele intacta. A alma sangra. Pego uma caixa de fósforos. Sim, sou eu, eu que começo o incêndio. Vejo as chamas subindo temporal acima, queimando o teto, destruindo tudo... O vermelho do fogo é bonito mas não esquenta. A pele não sente, a alma não sente. Ilusão.

Quando o fogo termina, tudo está igual, sempre igual... e a tarde continua cinza lá fora.

04/10/2009

Terça Feira

E como dois peregrinos em busca de abrigo meus olhos buscavam os dela. Olhos de encanto e mistério, de feitiço e paixão. Duas lagoas castanhas onde se perdiam meu espírito e meu fôlego. Duas estrelas reluzentes que guardavam as promessas do amanha e do depois. Dois olhos risonhos, brincalhões, ladrões de cores e brilhos. Dois egoístas que pareciam querer toda minha atenção para si... e conseguiam.

Enlacei sua cintura e puxei-a para junto de mim. Senti seu coração acelerar? Senti meu coração acelerar. Senti um pequeno arrepio percorrendo a espinha, não sei se minha ou dela. Seu corpo agora tocava o meu e, talvez no movimento mais doce que já vi, ficou na ponta dos pés para que nossos rostos pudessem se aproximar. Seu hálito era intoxicante e não pude deixar de pensar que ali, respirando o mesmo ar que passava por seus lábios entreabertos, até mesmo o ato de respirar tomava uma dimensão mágica e agora, tudo o que eu era estava ligado aquela menina que correspondia com força ao meu abraço.

Sua mão tocou meu rosto e senti o corpo todo estremecer. Sua pele cor de neve era macia e quente, e seus movimentos estavam acima da minha compreensão. Fechei os olhos por alguns instantes enquanto a realidade a nossa volta se desfazia e seu perfume nos levava a um campo florido, onde sozinhos sussurrei ao seu ouvido o quanto me fazia falta e o quanto eu gostava dela. Sua voz em melodia também confessava saudades enquanto eu diminuía ainda mais o espaço já quase inexistente entre nós, como que querendo fundir aquela existência a minha e completar enfim todas as lacunas próprias de mim mesmo.

Afastei meu rosto a fim de admira-la um pouco mais e enquanto seu cabelo lentamente se desprendia da minha barba por fazer fui irrepreensivelmente atraído por seus lábios e enquanto tirava lentamente a pintura vermelha, tão cuidadosamente feita, ao encostá-los aos meus me peguei imaginando se algum dia a vida seria melhor do que isso, ou se alguma outra terça feira de manha seria novamente tão boa assim.

22/09/2009

Documento 57 ou Alem das palavras

Havia dois dias que não pensava em outra coisa. Claro, parava de quando em quando pra comer ou tentar fazer alguma outra atividade, mas no fundo seus pensamentos não saiam disso, não deixavam aquele dia, revivia cada gesto, cada segundo, cada beijo numa saudade tão grande que não conseguia mensurar.
Recostou-se na cadeira. Precisava pensar, respirar... respirar o dobro, o triplo, mesmo sabendo que ainda ia sentir aquela falta de ar sempre que pensasse nela. Nunca imaginou que o termo “roubar o fôlego” fosse tão real. Riu. Olhou novamente para a tela do computador: “Documento 57” aparecia no topo do editor de texto e, por algum motivo aquilo não lhe parecia promissor. Alias, algum motivo não, alguns motivos, todos os motivos e talvez mais alguns que não conseguia pensar.
Era até irônico, ele que tanto falava, que gostava de escrever, encontrava-se agora, sem palavras, incapaz de contar para o mundo o quão incrível aquela guria era e o quanto ela mexera com ele. Pensou até em atear fogo na casa, mas isso dificilmente mandaria a mensagem e ainda o deixaria sem teto, então acabou descartando a possibilidade.
Ainda assim o problema permanecia. Como dizer que nada tinha a mesma graça sem ela por perto? Como explicar sem parecer irremediavelmente apaixonado que ainda sentia seu cheiro em todo lugar? Perguntas difíceis. Talvez, pensou, não devesse falar nada. E daí que todo branco que via lembrava sua pele, todo vermelho seu batom? E daí que quando olhava pro céu noturno via suas lindas sardas em vez de estrelas? Ela não precisava saber, precisava?
Era isso, tinha decidido. Sabia que não teria condições de descrever algo tão especial como ela era para ele. Sabia que não conhecia palavras o suficiente para falar de cada sensação que seu toque lhe causava, cada carinho, cada suspiro, sabia que pelo menos por enquanto o sabor do seu beijo ia ficar apenas na sua boca e no seu coração. Um dia, prometeu a si mesmo, um dia aprenderia a tal da “língua dos anjos” e, quem sabe nela, encontraria as palavras para fazer com que o mundo finalmente soubesse que aquele sorriso nos seus lábios vinha dela e somente dela, e que mais do que o ar nos seus pulmões e o sangue em suas veias, ela se tornara essencial. Essencial para enxergar as cores, essencial para sentir os sabores, essencial para seus sonhos.
Olhou novamente para o “Documento57” e levantou-se. Não queria mais escrever, não queria mais estragar aquilo com palavras. Estava simplesmente feliz, mais do que havia estado em um longo tempo, e estava agradecido por isso. Suspirou, desligou o computador e entregou-se a um sono tranqüilo e sonhos do que ainda estava por vir.



Desculpa ai, eu sei que ainda não está bom, mas não consegui fazer melhor hoje... prometo compensar no proximo ^^