19 de jan de 2014

Nossa Caloi 10 Branca.

Faz tempo. Deuses, como faz tempo... E ao pensar isso ele se perdeu em lembranças felizes. Ele pensou na sua Caloi 10 branca com rodinhas pretas dos dois lados. Ela era a coisa mais linda que ele já vira na vida e tudo o que lhe custara foi uma promessa de nunca mais chupar chupeta. E se lembrou de seu pai. Se lembrou de como era fácil viver com ele naquela época. Se lembrou de parques e estacionamentos. Do vento batendo no seu rosto e lhe dando aquela sensação de que ele podia tudo. De que ele era legal, destemido, invencível. De como com aquela bicicleta nem mesmo os carros, nem os aviões, poderiam lhe alcançar. Se lembrou de como cada curva parecia mais radical que a anterior. E de como era feliz. Ele, a Caloi 10 branca e seu pai.

A minha direita tem um homem com alguns dentes quebrados.

Ele não queria que nada mudasse. Jura que não. Mas então algum menino apareceu com outra bicicleta. Com uma rodinha só. E ele parecia tão... “mais legal”. E mesmo feliz ele quis aquilo também. Seu pai achou que ele estava crescendo. Seu pai tirou a rodinha do lado esquerdo com satisfação e uma chave que ele não sabia o nome. E ele montou na sua Caloi 10 branca e pedalou. E sim, ele ainda se lembra do primeiro susto. Da primeira balançada mais forte. Da primeira vez que colocou o pé no chão com medo de cair. E ele se lembra de como, a partir disso, só queria fazer curvas para a direita. O medo é uma coisa poderosa em uma criança. E ele preferia andar em círculos buscando a antiga sensação de segurança do que se arriscar a ter de por o pé no chão de novo. Meninos legais não põe o pé no chão.

Atrás de mim tem um rapaz. Ele não tem um dedo.

E então, depois de um tempo que para sua mente de criança foi extremamente pequeno, seu pai sugeriu tirar a rodinha da direita. Era assim que os adultos andavam. E pelos Deuses, como ele queria ser adulto. Ele queria parecer grande. Bem maior do que realmente era. E queria ser corajoso. E queria orgulhar seu pai. E foi assim que um garoto meio gordo e com um péssimo corte de cabelo marchou até o pai com uma coragem que ele não tinha e exigiu que o homem tirasse a ultima rodinha. E foi assim que ele cai pela primeira vez. Numa tarde de sol, no pátio de um museu, na frente de todo mundo. E aquilo doeu. Doeu no joelho. Doeu na mão. Doeu no orgulho. E ele percebi que a Caloi 10 branca não lhe fazia invencível. E ele a culpou. Ele a culpou por algo que ela nunca prometeu. Ele a culpou pelos meus excessos e falhas. Ele a culpou e disse que tudo que estava errado era culpa dela. Se ela fosse de 12 marchas. Se ela fosse azul. Se ela... E ele se esqueceu de que ela também podia lhe culpar. E de que lhe culpando, ela podia estar certa. E de que podia estar mais certa do que ele. Mas isso não é coisa que um menino de vinte e tantos, quero dizer, dez anos, pense. Algo aquele dia se partiu entre ele e a Caloi 10 branca. Eles não eram mais incríveis conquistadores de velocidades absurdas. Eles eram apenas um menino meio gordo e sua bicicleta. E após um curativo o menino meio gordo levantou a bicicleta e tentou de novo. E ele se lembra de seu pai lhe segurando. Torcendo por ele. Mesmo que ele fosse só um menino com uma Caloi 10 branca.

Tem um velho a minha esquerda. E seus joelhos parecem uma colcha de retalhos. Cicatrizes que marcam a pele.

Depois de muito tempo ele aprendi a andar direito de bicicleta. E alguns dos sentimentos que ele teve muito antes voltaram, ainda que não da mesma forma. A intensidade mudara. A compreensão. Ele era mais velho agora. Mais ainda fazia curvas radicais. Ele se lembra do dia em que deu sua Caloi 10 branca para uma criança carente. Meu pai estava lá. Ele lhe dizia que eu já estava grande demais para aquela bicicleta e que outra pessoa poderia aproveita-la melhor. Ele lhe dizia que comprariam outra, o que embora tenha demorado um tempo, foi verdade. Ele lhe dizia muitas coisas que ele não queria ouvir. Era a Caloi 10 branca dele. E ele se lembrou de entender que as vezes a gente tem de deixar ir. Que a gente tem de entender que tudo tem seu tempo. E ele se lembra de outras bicicletas. De outras vezes que foi radical. De outros, ah, de tantos outros tombos. E se lembra de se revoltar. De aprender a andar de patins. De tentar – e falhar miseravelmente – aprender a andar de skate. Paixões temporárias. Cada uma com seus momentos radicais. Cada uma com suas quedas. E se lembra sempre da Caloi 10 branca.



Olhos para as figuras a minha volta. O homem dos dentes quebrados caiu de uma Caloi 10 branca quebrou os dentes no estacionamento de uma firma grande perto da sua casa quando era criança. Ele pensou que os dentes nunca mais iam voltar ao normal. O rapaz perdeu o dedo, ou pelo menos assim lhe pareceu, quando estava aprendendo a fazer curvas e acabou enfiando a sua Caloi 10 branca na parede de pedras de um prédio na praia onde estava com a sua família. Sua avó fez os curativos e os dedos ficaram. O velho com as cicatrizes. Ah, essas vieram de várias quedas. Ele se lembra das que doeram mais. Ele se lembra de umas duas que fizeram ele querer continuar deitado no chão. Mas ele se levantou. E eles estão todos aqui. Nós. Eu. E fazem anos que eu não ando de bicicleta. Mas hoje eu vi uma Calói 10 branca na rua. Não tão bonita quanto as de antigamente. Não tão bonita quanto eu lembro.



Seu pé direito encontra o pedal. O vento bate em meu rosto. Nós somos invencíveis em nossa Caloi 10 branca. Nós somos infinitos. Faz tempo. Deuses, como faz tempo.