10 de abr de 2014

Mih.


Mih – ele pensou. – Ele sempre soubera o seu nome, ainda que muitas vezes a escrevesse por metáforas mais rebuscadas. Mih. Aquele trecho de nome. Uma interjeição capaz de despertas tantos sentimentos. Pedaço carinhosamente retirado de Camila. Pedaço claro, porque Camila era um universo. Um sem numero de contradições e poesia. Uma complexidade indescritível para as melhores palavras. Ele sabia que Camila era demais. Grande demais, séria demais. Mih. Um pequeno fonema. Algo que seus parcos vocábulos tivessem mais chance de descrever. Mih. Ele preferia assim. Talvez ela também.

Ele fechou os olhos e a visualizou mais uma vez. Uma criatura pequena, de cabelos negros e pele alva. Imaginou as lentes, as roupas, o all star que, quem sabe ela gostasse de usar. Sua mente chegou mais perto. Lembrou de um cheiro perdido no tempo. De palavras que ela poderia dizer. Do som de uma voz. Pensou se ela seria real. Pensou se ela ainda seria real. E por fim, pensou se algum dia ela foi real.

E quanto mais pensava nela, mais difícil era se concentrar em sua imagem. Havia algo de diferente nela. Algo que conferia a ela uma particularidade única, acima do que ele podia imaginar. Ela era mais viva que seus conceitos. Mais viva que suas idéias. E, por ser mais do que era capaz de imaginar, logo, até mesmo as imagens que construíra dela escapavam de seus olhos e não havia nada que ele pudesse fazer.

Ele pensou em procura-la. Em tê-la. Em escrevê-la. Como se o fato de colocar aquela existência em palavras, como se descreve-la fosse, de alguma forma, prende-la aquelas palavras. Mas era inútil. Ela tinha suas próprias palavras. Sua própria vontade. Ela fugiria dele. Sempre fugia. As vezes ficava meses sem o procurar. As vezes era sua própria respiração. As vezes o fazia brigar consigo mesmo.

Ainda assim, saber disso não mudava nada. Ele achou, em uma das muitas vezes que pensara sobre o assunto, que em outra vida eles seriam como planetas a dançar envoltos em suas orbitas, entrelaçados na vastidão do espaço, condenados a nunca colidir. Era triste, mas de alguma forma gostava daquela metáfora. Gostava também da idéia de um dia colidirem de fato. Pensou na poesia de tudo aquilo. Sabia que ela gostava de poesia. Talvez escrevesse aquilo para ela um dia. Talvez numa tarde preguiçosa. Talvez declamasse em um jantar romântico. Talvez mostrasse o guardanapo rabiscado, prova do primeiro esboço, guardado com carinho entre as paginas de um livro sobre solidão e lhe dissesse o quanto aquele pequeno e frágil pedaço de papel tinha sido importante para ele tantos anos atrás.

E enquanto pensava em todas as coisas que queria fazer se ela ficasse, mais uma vez, ela decidiu fugir. Partir dançando com as folhas de um vendaval. Ter aquela existência leve que ela tanto clamava gostar. Partir. Ir. Como em um sonho, ambos sabiam que eventualmente o desfecho se apresentaria em forma de adeus. Mas ambos também sabiam que ele não poderia simplesmente deixa-la ir. Ou pelo menos ele sabia. Sabia que ainda não aprendera a ama-la livre. Sabia que era um erro tentar segura-la, mas sentia, e isso talvez fosse a pior coisa, que não poderia não lutar.

E então, como tantas outras vezes no passado, ele se sentou em frente à maquina de escrever e a alimentou com uma folha de papel. O sentimento era familiar. Os sons ecoavam em sua mente como os antigos risos da infância. Uma breve censura passou em seus pensamentos... Ele tinha prometido a si mesmo não mais fazer esse tipo de coisa. Ainda assim ele estava ali, na frente da máquina, inexorável, como o movimento da vida que segue independente das condições daquele que vive. Talvez precisasse escrever, como precisava respirar. Talvez só fosse cabeça dura demais para parar. Ou só precisasse dela. Mas ela fugiria. Fugiria com toda a vida, todas as palavras, toda a coleção de defeitos que se encaixavam tão bem. Ela fugiria com aquela adorável cegueira que a impedia de ver tudo que existia de bom, em si, nele, num –possível? – ficar.

Mih, ele escreveu enquanto ela partia. Mih... E pensou que talvez devesse terminar a frase ali mesmo. Com reticencias. Talvez...