15 de ago. de 2013

Uns dias

Que se foda!
As palavras saiam fracas, estranhas. A garganta estava seca. Falta de uso. Os dedos também estavam mais duros. As frases saiam assim, as golfadas. Um jorro vindo da alma. Da lama. Da vontade de atirar em todas as direções até que não existisse nada além dele. Ele não queria ouvir as justificativas. Não queria ouvir que estava errado. Não estava. Não queria estar. Não queria que ninguém lhe roubasse o direito de estar puto. Não que fosse se vingar, não acreditava nisso, mas pelo menos podia estar puto. Podia beber. Encher a cara até tudo parecer melhor. Já fizera isso antes. Queria o silencio. Queria que pelo menos dessa vez as coisas fossem do seu jeito.
Estava cansado.
Cansado de tentar ser superior. De ser bom. De correr atrás. Estava cansado de se refazer. De pegar os estilhaços de si e tentar fazer um novo chão. Um novo começo onde se apoiar. E sim, isso era mais difícil do que parecia. E talvez, e esse pensamento realmente lhe assustava, só talvez, já não tivesse jeito. Talvez esse fosse o preço dos pecados que cometera, e de alguns que ainda cometia. Talvez simplesmente já não valesse mais a pena. E enquanto pensava nisso ele sentia o caos abaixo dos seus pés. Ele sentia a vida. Não necessariamente algo bom, mas uma força. Uma força neutra. Uma força que exigia vazão. Que aproveitava cada brecha de seu suposto controle para escapar. E a vida também saia assim, as golfadas. Não! Mais forte! Aos jorros! E jorrava violenta. Aquela força era cruel. Era mesquinha. Era indomável. Era brutal. E ela, ele agora sabia, quebraria novamente seu chão. Estilhaçaria mais tantas vezes seu coração.
Os gritos de sua garganta saiam melhores agora. Mas ainda assim, ainda que fossem perfeitos, ainda que acordassem não só a sua casa, ainda que acordassem a porra da vizinhança inteira, do mundo inteiro. Ainda assim não seriam o bastante. E de novo talvez - esse maldito talvez - nunca fossem o suficiente. A garganta secaria de novo, é fato. Ou pelo grito ou pela ausência. Os dedos, que agora escreviam freneticamente nos papéis e nas paredes e, por fim, no próprio corpo, eles também voltariam a ser duros e lerdos como antes. As decepções continuariam. Os desamores. As importâncias não correspondidas. E eu juro que queria terminar isso com uma frase mais alegre, ou uma esperança no futuro, acho realmente que ele merecia, por mais errado que fosse, mas, eu também ando cansado. Espero que ele me desculpe por isso.


30 de jul. de 2013

Fuga.

Troquei a foto. Troquei a roupa de cama. Troquei os sorrisos.
Fugi sim. Por anos. Por léguas. Por oceanos.
E voltei.
E notei que já não era do sorriso que eu tinha medo.
Mas da sombra de um tempo ido.
Da saudade que faz tudo mais bonito.
Tinha medo de mim e do que o meu querer podia roubar de mim.
Tenho medo dos fantasmas enterrados.
Medo das palavras ditas. Mais medo ainda das não ditas.
Medo do pretério do futuro. Medo do mais que perfeito.
Não, nunca fui corajoso.
Meus arrombos de romantismo analisados não são muito.
Talvez não cheguem nem perto do suficiente.
Mas eu sou assim, silenciosamente alto.
Não grito. Ou pelo menos não mais.
Também não procuro culpados. Não os quero.
Que todos se absolvam.
Ou quase todos. Não sou tão bonzinho assim. E nem tento ser, confesso. Não de verdade pelo menos.
O fato permanece. A fuga é mais fácil.
Um copo de suco de laranja e uma torrada e pé na estrada.
Mas, no fundo, ainda sou eu. E ainda tenho que voltar.
Mudanças e pretextos.
A verdade é esquiva e inconstante. Eu também sou. Confuso. Contraditório. Paradoxal.
E errado. Dizem.
Mas eu tento. Tento voltar. Tento enfrentar.
Tento escrever de novo. Mas escrever... é se abrir demais... entende?
E mesmo sabendo que o texto de hoje pode se transformar no fantasma de amanha.
Eu tento. Tento porque é uma parte de mim.
Tento porque alguns demônios só são exorcizados quando ganham nomes.
Enfim, eu tento. E dessa vez, de verdade.

Mas se eu pudesse fugir... A se eu pudesse fugir mesmo... Eu fugia.

1 de mai. de 2010

Antes de dormir

E enquanto eu velava seu sono todos os caminhos errados pareciam certos.

E os fantasmas do meu armário passavam, um por um, cada um com uma memória, cada um com uma dor, refazendo seus passos, seus gestos, e desaparecendo no batente da porta. E de cada poro vazava uma lembrança. E de cada poro vazava uma gota de sangue. As promessas se desfaziam no ar e os anos corriam velozes.

E enquanto eu sentia os movimentos sôfregos do seu corpo sob o meu e você mordia suavemente seu lábio reprimindo os gemidos de cada nova descoberta as velhas cicatrizes sumiam aos poucos. As antigas ilusões estilhaçadas voltavam a tomar forma. A cada sorriso, a cada beijo, sentimentos mortos tornavam a florescer. A cada suspiro a nevoa cinza se dissipava. A cada olhar... Ah, a cada olhar... Com todo o peso do céu as muralhas caiam e as defesas ruíam no mais profundo silencio.

E enquanto eu recebia o calor do seu hálito e aninhava seu corpo nu no meu peito um vazio avassalador me tomava, como o medo de pular de um precipício, como ser jogado de um avião em movimento sem direito a para quedas. Qualquer medo ou experiência perdiam a validade enquanto seus sussurros doces me esvaziavam, me purificavam. Não havia mais o que esconder. Não há. Olho mais uma vez para o penhasco. O maior que já vi. Sorrio uma ultima vez para meus fantasmas e, num momento de coragem monumental me atiro, entrego, confio e espero que teus ventos façam minhas asas enferrujadas voarem pela primeira vez.

E enquanto eu percebo que não sou mais meu, apago a luz e beijo sua testa. Não tem mais jeito. Então sussurro em teu ouvido e puxo um pedaço do cobertor.



Boa noite meu amor...

27 de abr. de 2010

E a (sua) vida continua...

E então veio o primeiro grito. E o segundo. E o terceiro. A garganta rasgava a cada esforço. Gritou até que o sangue começasse a fluir junto com a voz. Pedi que com o sangue saísse a alma. Pedi que os meus cortes fossem tão profundos quanto os seus. O quarto tremeu. Eu tremi. A sanidade fora embora. Trocara de lugar com o amor. Trocara de lugar com a tinta. Com as letras. Com o sangue. Dor. Dor de um corpo que se batia. Osso. Pele. Carne. E se ele pulasse? E se se jogasse da escada? Do prédio? E se caísse do céu? Alguém sentiria falta? Você sentiria falta? Faria alguma diferença na sua rotina? No seu café com leite? Na sua cama com sabe-se lá quem? A loucura é individual. A morte também. Meu nariz de palhaço está no chão. Minha adaga também. Sua porta apodrece fechada. Minha porta morre aberta. Não importa se não faz sentido. Não importa se dói. Só me importa se é real. Será que isso ainda me importa?

12 de abr. de 2010

Pagina 26

Eu sei que você nunca quis que eu me sentisse assim. Sei que você nunca quis meu mal... mas, de que adianta isso se eu mesmo o quis? Eu quis construir essa fantasia de nós dois. Eu quis o sonho, e enquanto eu sonhava fantasias, você cuspia realidade. Não me entenda mal, não digo que estava errada, mas talvez certa demais. O fato é que eu construi o nosso castelo para mim mesmo e agora, quando a noite cai e as coisas mais simples me lembram você, o sonho de nós dois apodrece sem morrer, escorrega entre meus dedos e eu me reviro na cama com cada parte do meu corpo gritando o seu nome.

Merda. Como se pode sentir falta do que nunca se teve? Seria esperança? A maldita sombra do “e se” espreitando minha solidão?Mas que remédio, meu Deus, que remédio para essa realidade azeda? Que cura espero eu que guiei tuas mãos indispostas até o centro do peito e as forcei a arrancar meu coração? Que doce loucura poria fim a esse tormento? Qual veneno terrível irei recusar em nome dessa melancolia inventada?

Ah, se pelo menos você não existisse. Se pelo menos fosse, como todo o resto, uma fantasia maluca, talvez a dor incomodasse menos. Mas não, você teima em existir, em ser encantadoramente real, verdadeira, diferente do nós que existe em mim, diferente desta faca de dois gumes que pelas minhas mãos só fere a mim mesmo de uma forma inegavelmente real.

Quão absurda ilusão é essa de eternamente perder uma guerra que luto sozinho... Que inimigo é esse senão o meu próprio amor? Sim, digo novamente enquanto tomas uma taça de meu sangue, sim, eu te amo, e talvez esse amor nunca vença a sua lógica ou seja mais real do que esse nós que criei apenas para mim. Talvez sempre me falte realidade, talvez sempre te falte fantasia. Talvez... talvez eu não saiba mais o que estou dizendo, talvez nunca tenha sabido, mas duvido que você possa dizer honestamente que estou errado. Duvido que não concorde e, principalmente, duvido que em você não exista pelo menos o fantasma de um nós.

O pior é saber que sentir isso não muda nada e que mesmo agora, depois de tudo escrito pela décima centésima vez esse nós maldito não vai embora. Ele nunca vai. E saber que talvez, só talvez, sou eu que não o deixo ir também não me faz muito bem...
Me disseram certa vez que existem males que são necessários...




Será?

6 de abr. de 2010

as coisas em que acreditamos

Eu me surpreendi quando descobri que ainda acreditava. Talvez eu seja mesmo um perdido na vida, um desorientado, um alguém que depende mais da sorte do que do juízo e que pode ser derrubado por uma pergunta inesperada numa quarta feira a tarde, pode ser que não. Pode ser que eu seja comum, igual a qualquer outro, sem nenhum segredo especial, nenhum super poder. Mas e daí? Quem pode dizer que se conhece plenamente antes de se surpreender quando seu coração se despedaça em um bilhão de farpas e você finalmente percebe que ainda acredita em finais felizes.
Acreditava.
Acredita...

Agradecimentos

Gostaria de agradecer a todos os comentários recebidos, isso é definitivamente surpreendente e não posso negar que gostei demais de recebe-los. Pediria desculpas pela demora nos posts, mas, de alguma forma, seria em vão, afinal eu simplesmente não tenho disciplina pra manter isso aqui atualizado. Enfim... tentarei postar mais, sem promessas ok? Juro que não é de sacanagem, eu sou meio lento pra essas coisas de internet, mas não ignorei ninguém...
Então, obrigado a todos e... hum... a, sei lá ^^ rsrsrsrs
abraços, beijos, apertos e mão e todas essas coisas eleitoreiras (não, não concorro a nada, só a um ataque de bobeira as 5 e meia da manha... ossos do oficio.)

AAaaaa sim, publiquei meu segundo conto... não sei se tá bom, mas tá lá, no papel, super gratificante... obrigado a todos que compareceram, depois ponho uma foto ou coisa assim... e quem sabe em breve mais alguma coisa não sai por ai... quem viver verá ^^