11 de mai de 2009

Liberdade e Vodka, ou A Noite da Besta

Tem dias que não suporto ver a luz. Dias em que o calor e o riso das crianças no parque me parecem cordões em um teatro de bonecos. Eu não gosto de bonecos. Nem de cordões.
Me visto com pressa, mesmo sabendo que hoje é um daqueles dias, mesmo sabendo que hoje eu não vou conseguir fugir.
Saio.
As ruas estão vazias. Nada alem de ladrões e prostitutas povoam as esquinas. Perigo? Nenhum. Hoje eu sou um deles, um pária, um perdido.
Caminho sem rumo na tentativa vã de acalmar os fantasmas do meu armário, de afugentar o monstro dentro de mim. Inútil.
Meu olhar vaga, opaco, escuro, a procura de alguma coisa onde possa descarregar esse ódio que meu peito encerra. O coração acelera. Dentro de mim pensamentos se chocam com a força de uma tormenta, explodem, chispam e fogem como fogos de artifício em fúria.A vida me agride, eu agrido a vida. Simples assim. De que adianta afinal tudo isso? Todo o pensamento, todo o saber? De que adiantam todos os planos se essas malditas cordas ainda nos controlam?
Chego no bar, sujo, velho, corroído por insetos e pessoas. Peço vodka. Um gordo suado atrás do balcão me dá um copo, exijo a garrafa. Uma prostituta sexagenária me observa. Podia ser minha mãe, quem sabe minha avó, mas seu olhar não está na minha idade, está na minha carteira. Dinheiro, dinheiro pela vodka, dinheiro pelo sexo, dinheiro para sustentar suas jóias ensebadas e sua maquiagem mal aplicada. Vida. Isso é vida. Vaidade, afetação, egoísmo, orgulho, vícios, ira, ira, ira...
Pego a garrafa, pago o gordo (que me sorri com seus dentes podres), ignoro a puta. A besta precisa andar, e como uma fera aprisionada, uivo na rua. Bêbado? Não o suficiente. Ando agitado oscilando entre a parede das casas e a rua. Casas de família, bairro decente. Podre, corrupto, devasso.
Os cordões me prendem. Os malditos cordões ainda me prendem. Enlouqueço. Seriam todos como eu? Seriam todos felizes e sorridentes a luz do sol, inventando mesuras, fazendo agrados, vivendo “suas” vidas? Bateriam todos no peito, como eu, dizendo que são senhores de seus destinos? Que conseguem o que querem? Que vivem a vida do jeito que acham melhor?
Uma tempestade desaba sobre a minha cabeça. Clarões iluminam as ruas só para jogá-las novamente na escuridão, cada vez mais escura, cada vez mais profunda. Hoje é a noite da besta.
Só por esta noite eu quero esquecer a minha educação. Só por esta noite eu quero esquecer a sociedade. Só por esta noite eu quero viver livremente, obedecer a cada desejo, realizar cada fantasia. Só por esta noite eu não quero pensar no próximo. Não quero lembrar do que minha mãe me ensinou. Não quero ser o bom garoto. O bom garoto é falso, é vendido. Fachada decadente de uma sociedade inescrupulosa. Ele é como eu. Ele sou eu. Ele sou eu em todas as outras noites, em todos os outros dias. Contido. Restrito. Só por essa noite quero ser besta-fera. Só por essa noite quero me confundir comigo mesmo, dar asas ao monstro aprisionado, aceita-lo, solta-lo, e então como ele, ser livre.
Grito com toda força que ainda tenho, na esperança de que esse grito me liberte, na esperança de que algum deus misericordioso me fulmine aqui, nesse momento, destruindo a minha vida, mas me livrando desses cordões, dessa cela de privações. Grito, mas nenhum deus responde. Ouço uma voz vinda de uma das casas me mandando calar a boca. Meu sobretudo está encharcado. Meu cabelo, desgrenhado, atrapalha minha visão. Minha vodka no fim.
Penso na prostituta e na sua “beleza” comprada. Penso no sorriso podre do gordo dono do bar. Penso no sorriso das crianças no parque. Penso, e rezo em silencio para esquecer essa noite. Rezo para me conformar... me conformar com a vida que eu sempre quis.




... acho que afinal o mundo não é como me ensinaram, mas acho também que não vai ser tão fácil me livrar dessa visão pré concebida dele, e que isso ainda vai me fazer sofrer muito...

Um comentário:

Arlequim disse...

Inveja²
você escreve melhor que eu.. haha